sexta-feira, 12 de agosto de 2011
CONJUNTURA Social A pobreza registrou queda de 16% no ano passado e de 67,3% desde o Plano Real, em 1994 – falta um terço para o fim do caminho
O momento at ual inspira
o l h a r e s e m h o r i z o n t e s d iversos sobre a evolução da
d e s i g u a l d a d e d e r e n d a n o
Brasil. Na passagem ent re os
anos de 2010 e 2011, acabamos por encerrar a década
g r e go r i a n a d o s a no s z e r o -
zero. Esta última virada da
a m p u l h e t a t a m b é m d e t e rm i nou o f i m d a E r a L u l a ,
c om o f i m d e s eu s e gundo
m a n d a t o p r e s i d e n c i a l . A o
passo que 2010 em si ainda
n ã o f o i d e s t r i n c h a d o s o b
a p e r s p e c t iva d a s d iv e r s a s
d i m en sõ e s d a d e sig u a ld ad e
qu e ap enas as p e squ i sas domiciliares permitem captar,
mas que marca o fim de ano,
o mandato presidencial e a
década.
O l ha r e s s i mu lt ân e o s s obre as t end ên c ias so c ia i s d e
l o n g o , m é d i o e c u r t o p r az o s ex ig e m o u s o d e ba s e s
complementares. A safra do
C e n s o D e m o g r á f i c o 2 0 10
q u e o I B G E n o s b r i n d a ,
p e r m i t e c ap t a r a e vo lu ç ão
de uma série de estatísticas
com as características sobre
a população, umas datando
desde o Censo 1960 e out ras
do i nqu é r i to d e 187 2 . E nt r e t anto , s e ja po r qu e s tõ e s
d e i nd i s pon ib i l idad e a t ua l
d e m i c rodado s do C e n s o e
m e s mo d e s eu s r e sp e c t ivo s
d ad o s s e c u n d á r io s d e r e nda , ma s e sp e c i a l m e nt e po r
dificuldades metodológicas
envolvidas nas comparações
com questionários de renda
d i f e r e n c i a d o s ao l o n g o d o
tempo.
Pesquisas
Essas dificuldades de comparação censitárias não são
conjunturais e nunca serão
a d e q u a d a m e n t e e n d e r e ç adas, o melhor que temos de
fazer, tanto agora como depois, é usar outras bases já
d i spon ívei s como a Pe squ i sa
Nacional por Amost ra de
Dom i c í l io s ( Pnad) e a Pe squisa Mensal de Emprego
( PM E ). A P n ad é o v e rd ad e i r o c e n t r o d a s a n á l i s e s
de renda brasileira pela sua
f r e qu ên c i a a nu a l , mu lt ipl icidade de quesitos e, acima
de tudo, pela constância do
que s t ioná r io de re nda de s de
1 9 9 2 . E n t r e t a n t o , a P n a d
não foi feit a em alguns anoschave como 2010 e 2000,
função da mobilização herc ú l e a da e s t r ut u ra ibge ana
na implementação do censo
demográfico, nem em 1994
que seria crucial para anal i s a r o c om e ç o do p e r íodo
da presidência de Fernando
Henrique Cardoso.
Já a PME, apesar de sua
restrição geográfica e de conceitos de renda, nos oferece
toda a flexibilidade para fechar essas lacunas nas séries
h i s tór i c a s d e dado s . No s s a
O mínimo da
desigualdadeCONJUNTURA 47
Maio 2011 Social
Agora, dado o cená r io
para a década de 2000 como
u m t o d o , o c o m p a r a m o s
c om a s d e ma i s d é c ada s . O
e s t udo d a d e s ig u a ld ad e d e
r e n d a b r a s i l e i r a c o m p l e t a
a g o r a m e i o s é c u l o , c o m e-
çando no Censo de 1960, a
primeira pesquisa domiciliar
representativa do país a perguntar diretamente a renda
da popu laç ão. O e spe t acu la r
aumento da desigualdade entre 1960 e 1970 foi seguido
de uma longa monotonia estatística. Alguns chegaram a
comparar a dinâmica dessas
séries à do eletrocardiograma de um morto.
A compa ração que nos
i nt e r e s s a , po r t anto , é a da
década de 2000 com a de
1960. O problema do Cento d o e s s e p e r ío d o d e s d e o
Plano Real até dezembro de
2010 é de 67,3%.
Desigualdade
Segundo a PME, as taxas
de cres ciment o da renda
dos pobres foram sempre
superiores às dos ricos entre
dezembro de 2000 e setembro de 2001 e de setembro
d e 2 0 0 9 a d e z e m b r o d e
2010. Isso indica que a desigualdade caiu não só ent re
cada Pnad, mas sugere que
t amb é m c a iu no s ex t re mo s
da década gregoriana. A diferença é que no começo da
década passada a renda caía
menos para os mais pobres
e no final crescia mais para
os mais pobres.
Ao c omp l e t a r mo s a s s é-
ries pela t axa de variação da
PME observadas nas extrem id ad e s d a d é c ad a , ch e gamo s a u m a t a x a ac u mu lad a
d e c r e s c i m e n t o n a d é c a d a
passada de 10,03% para os
10% mais ricos e 67,93%
pa ra o s 50% ma i s pob r e s .
O u s e ja , a t a x a d e c r e s c imento da metade inferior foi
577% ma i s a lt a qu e a do s
10% mais ricos. Isso faz com
que a razão de rendas médias
no s doi s e s t rato s popu lac ionais, que é uma medida de
d e s igua ldad e , c a i a qua s e à
metade dos valores iniciais:
d e 18 , 1 2% , e m d e z e m b r o
de 2000, para 9,76%, em
dezembro de 2010.
propost a é complement ar essas séries não em níveis, mas
nas respectivas variações. A
PME , po r t e r qu e s t ioná r io
e cobertura geográfica mais
restritos, não permite infer ê n c i a s c omp a r áv e i s à s d a
P n ad , u m c a s o c l á s s i c o d e
la ranjas com bananas . Agora, por força da frequência
m e n s a l d a PM E , p o d e m o s
completar as séries da Pnad,
c o m p a r a n d o n a s l a c u n a s
bananas com bananas.
Ava l i amo s aqu i a e volu-
ção da distribuição de renda
na década bem como de seu
subproduto mais central ao
d e b a t e p ú b l i c o qu e s ão a s
medidas de pobreza. Nesse
a sp e c to u s amo s c omo ba s e
de comparação mandatos de
governo. A pobreza medida
pela combinação Pnad/PME
c a i 31, 9% , no qu e c hamam o s d e E r a F HC i n c o r p or a n d o o r e a l e a r e d u ç ã o
d o i m p o s t o i n f l a c i o n á r i o .
Isto é, começamos a contar
desde a data do lançamento
d o r e a l e m ju l h o d e 1 9 9 4
at é d e z e mbro d e 2002 . Na
Era Lula, entre dezembro de
2002 e dezembro de 2010, a
pobreza cai 50,64%, sendo
16,3% ent re dezembro de
2009 e d e z e mbro d e 2010 .
Esse ponto merece ser ressaltado, pois a primeira Meta
do Milênio da ONU é reduzir a pobreza de 50% em 25
anos (de 1990 a 2015). Ou
seja, o Brasil fez 25 anos em
oito! A queda acumulada em
A pobreza
registrou queda
de 16% no ano
passado e de
67,3% desde o
Plano Real, em
1994 – falta um
terço para o fim
do caminho4 8
CONJUNTURA
Social Maio 2011
s o d e 1 9 6 0 é q u e a r e n d a
i nd iv idua l não e ra pa s s ível
de ser agregada em termos
de renda pe r c a p i t a de cada
domicílio. Em f unção dessas
limitações, comparamos mudanças de medidas distintas.
O conceito usado na obra seminal de Carlos Langoni, de
1973, era renda individual.
O trabalho de Langoni cont i n u a s u r p r e e n d e n t e m e n t e
atual na metodologia e nas
conclusões, se as últimas forem invertidas para a década
at ua l , c omo t ive opo r t un idade de escrever no prefácio
d a t e r c e i ra e d i ç ão l a n ç ad a
p e l a E d i t o r a d a F u n d a ç ão
G e t u l i o Va r g a s , e m 2 0 05 .
O resumo da ópera at ual
seria o de uma revolução de
360º. Acabamos de volt ar ao
menor nível de desigualdade
de nossas séries históricas,
observado em 1960, conforme o gráfico feito a partir da
compilação e integração dessas bases diversas em termos
do que as respectivas taxas
de variação sugerem.
Ta lve z s e ja ma i s i lu s t rativo voltar o olhar para as
va r i a ç õ e s d e s e g m e n to s d a
p o p u l a ç ã o o r d e n a d a e m
o rd e m c r e s c e n t e d e r e n d a .
S e n ã o v e j a m o s : a r e n d a
dos 10% mais ricos sobe
66,87% entre os censos de
1960 e 1970. Se restringirmos a análise apenas aos 5%
m a i s r i c o s , o au m e n t o f o i
ainda maior: 75,42%. E os
50% mais pobres obtiveram
A renda dos
50% mais
pobres na
década de
2000 sobe 69%,
a imagem do
espelho do
ganho dos 10%
mais ricos nos
anos 1960
Visão de longo prazo desigualdade – Índice de Gini
Fonte: CPS/FGV a partir dos microdados da Pnad/PME e Censo/IBGE e Langoni 1973
0,48
0,50
0,52
0,54
0,56
0,58
0,60
0,62
1960 1970* 1979 1990 2001 2009 2010*
*Envolve dados dos censos de 1960 e 1970 e da PME de 2010.
0,5367
0,5828
0,5902
0,6091
0,5957
0,5448
0,5304CONJUNTURA 49
Maio 2011 Social
um aumento de 15,26% no
mesmo período. Ou seja, a
renda da metade mais pobre
cresceu 81,22% menos que a
dos 10% mais ricos.
I ncidentalmente quando
c ompa ramo s a s d é c ada s d e
1960 e a d e 2000 , a s t axa s
ac u mu lad a s d e c r e s c i m ento
d o s e s t r a t o s e x t r e m o s d a
d i s t r ibu i ç ão s ão s i m i l a r e s .
A renda dos 10% mais ricos
nos anos 1960 sobe 66,87%,
qua s e o aum e nto d e r e nda
dos 50% mais pobres na dé-
c ada pa s s ada , e v i c e -ve r s a .
É o que podemos chamar de
imagem invertida no espelho
da desigualdade. No f inal da
d é c a d a p a s s a d a , vo l t a m o s
a o p o n t o o n d e e s t á v a m o s
m e io s é c u lo ant e s . É o qu e
podemos chamar de revolu-
ç ão d e 360 º.
Marcelo Neri – Centro de Políticas
Sociais e Escola de Pós-Graduação em
Economia da FGV
mcneri@fgv.br e www.fgv.br/cps
Veja a pesquisa “Desigualdade de Renda
na Década” em www.fgv.br/cps/dd.
A renda
de negros,
analfabetos,
mulheres,
nordestinos,
nas periferias,
campos e
construções
cresceu mais na
última década
Assinar:
Postar comentários
(Atom)
Tecnologia do Blogger.
Seguidores
Quem sou eu
- RIBAMAR PASSOS
- UM SERVO DO ALTISSIMO/ SINDICALISTA E LUTADOR PELOS DIREITOS DA CLASSE TRABALHADORA MUNDIAL
Arquivo do blog
-
▼
2011
(179)
-
▼
agosto
(21)
- Paralisação no dia 31/08 em defesa dos Correios
- Proposta de reajuste da ECT é de 6,87% ENTÃO GREVE...
- SEM ATENDIMENTO DAS REIVINDICAÇÕES DOS TRABALHADOR...
- Pacote-bomba explode em agência dos Correios em SP
- presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Co...
- NA ASSEMBLEIA DESTA TERÇA-FEIRA, 23 , ECETISTAS DE...
- CTB- CONTRA OU A FAVOR DA MP 532????
- Funcionários dos Correios paralisam atividades no ...
- http://www.fentect.org.br/media/informes/CARTILHA_...
- Sem título
- Em 2011 fazem 140 anos de efetivação de um...
- Sem título
- FRAUDE ! ESTE É O NOME DO QUE ACONTECEU NA ARCO
- CONJUNTURA Social A pobreza registrou queda de ...
- Sem título
- Sem título
- INFORME 039 DA FENTECT, BRASÍLIA-DF 11/08/2011
- PLR 2011 - Aprovado proposta em 18 sindicatos.
- Partido dos Trabalhadores - Notícias
- PROPOSTA DA EMPRESA PÁRA TICKET
- <!--[if gte vml 1]> ...
-
▼
agosto
(21)
0 comentários:
Postar um comentário